Notícias do setor

As inovações radicais são as que trazem resultados excepcionais e isso às vezes não tem nada a ver com novas tecnologias


Tempo de discutir a inovação, debatendo como abrir caminhos no mercado. Com esse foco, foi realizado, na tarde desta quinta-feira (29/11), na sede da Fiesp, em São Paulo, o workshop “Casos Reais de Aplicação da Indústria 4.0 no Brasil”. O evento reuniu representes do mercado, da academia e de entidades de classe. A abertura ficou a cargo do vice-presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), Rafael Cervone.

“Estamos trabalhando para aumentar a produtividade das empresas e ampliar a competitividade do país”, disse. “Reconhecemos o caráter disruptivo da quarta revolução industrial”.

Segundo ele, “todos os portes de empresas serão impactados”. “Nesse cenário, o Senai-SP é parceiro estratégico desse movimento de mudança”.

Presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Luiz Augusto Ferreira lembrou que a Indústria ainda responde por 30% ou mais dos impostos arrecadados pelo Governo Federal. “Ou a inovação faz parte do desenvolvimento da indústria ou ficaremos de fora da manufatura 4.0”, destacou.

Para o diretor executivo da International Chamber of Commerce (ICC), Gabriel Petrus, “a inovação precisa estar no centro da agenda de inovação do país”.

Inovação horizontal

A primeira palestra do workshop foi feita pelo diretor financeiro e diretor adjunto do Departamento de Economia, Tecnologia e Competitividade (Decomtec) da Fiesp, Antonio Carlos Teixeira Alvares. Ele falou sobre inovação horizontal e indústria 4.0.

“As inovações radicais são as que trazem resultados excepcionais e isso às vezes não tem nada a ver com novas tecnologias”, disse.

Alvares citou alguns exemplos que provam o que ele diz. “A companhia aérea Southwest Airlines tinha um serviço similar ao das outras”, disse. “Até o dia em que começou a vender passagens por US$ 69 o trecho”.

No México, a fabricante de cimento Cemex conseguiu fazer a diferença em um mercado aparentemente sem muitas novidades, como é a indústria de cimento. “Eles inovaram na gestão”, disse. “Criaram uma rede ao estilo GPS que monitorava todo o trânsito da Cidade do México muito antes do o aplicativo waze existir”, contou. “Com isso, sempre garantiu a entrega de uma betoneira de cimento em meia hora em qualquer ponto da capital mexicana, onde o trânsito é tão pesado”.

Para Alvares, a inovação “deve ser de todos, não de responsabilidade de pequenos grupos de cientistas nas empresas”. “A prática deve se infiltrar por toda uma organização: isso é inovação horizontal”.

Competitividade

Gustavo Bonini, diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Scania, destacou, no segundo painel do workshop, que, para ser sustentável, um produto precisa ser competitivo. A sustentabilidade começa no chão de fábrica, disse. Foi uma questão de sobrevivência fazer a interconexão de tudo na produção da fábrica, declarou, mencionando a possibilidade de mais de 3 milhões de combinações na fabricação, que só começa depois do pedido fechado.

A Indústria 4.0, afirmou Bonini, traz qualificação e demanda treinamento. Ela substitui o que chamou de novas atividades que poderiam afetar a segurança das pessoas. E, além disso, incentiva a criação de empregos de qualidade.

Entre os exemplos do que é feito na Scania, citou os AGVs, veículos autoguiados, criados na própria fábrica à razão atual de um por mês e responsáveis pelo transporte no setor de produção de chassis, em diferentes rotas. Há, explicou, uma “fábrica dentro da fábrica” para os AGVs. Bonini fez palestra intitulada “Aplicação das tecnologias da Indústria 4.0 e a capacitação da mão de obra”, apresentando o case da Scania, em painel que teve também a participação de Manuel Cardoso, professor da Ufam, Bruno Di Clemente dos Santos, coordenador de Marketing Business da Schneider Electric, e Fernando Pimentel, presidente da Abit.

Clique aqui para fazer o download das apresentações iniciais do workshop.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544015299

Cervone, ao centro: mais produtividade em nome de um país mais competitivo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Painel 2: Aplicações reais nos setores de aeronáutica e tecnologia assistiva (laboral)

Bruno Jorge Soares, coordenador da Indústria 4.0 da ABDI, conduziu o painel e ressaltou que os cases apresentados desfilam tecnologias e processos que já podem ser aplicados. Ilustram quanto custa essa tecnologia e quanto ela custa na prática.

João Zerbini, gerente sênior de Tecnologia de Manufatura e Engenharia Digital da Embraer, destacou que a empresa é a terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, em mercado altamente competitivo, o que a obriga a ter muita eficiência.

Altamente complexo, um avião, para ser bem-sucedido, precisa da conjugação de vários aspectos atendidos pela Indústria 4.0. Com mais de 200 computadores, 55 km de fiação e mais de 3.000 sensores, um avião pronto, em operação, usa também conceitos da Indústria 4.0.

No projeto de uma aeronave já há a preocupação com a forma como será feita a automação da produção.

Na empresa a tecnologia é chamada de Manufatura Embraer 4.0, baseada nos pilares engenharia digital, automação de chão de fábrica e inteligência de manufatura.

São feitas simulações intensivas em todas as disciplinas de desenvolvimento, porque não é possível fabricar rapidamente um protótipo de avião. Com o design virtual se acelera muito a maturidade do projeto. Diminui o tempo de chegada ao mercado e se aceleram o atendimento e o gerenciamento dos requisitos. No design generativo, outra característica da indústria aeronáutica, há destaque para a manufatura aditiva, que permite redução de peso, elimina ferramentas, reduz o tempo de desenvolvimento, fabricação e entrega.

A fábrica digital permite simulação de processos, gestão de informações do chão de fábrica e integração disso à engenharia. As informações em tempo real ficam disponíveis para todos os stakeholders envolvidos no processo produtivo. E não se usa mais papel.

Com automação intensiva há flexibilidade nas mudanças, aumento da qualidade e possibilidade de reuso de recursos.

Há algum tempo a Embraer trabalha com realidade aumentada. Também aplica inteligência artificial. Há, explicou, trabalho muito forte no mestrado profissional de engenharia da Embraer com tecnologias de manufatura. Para gestão do conhecimento há uma comunidade de prática de Indústria 4.0 e um programa de mentorias sobre o tema.

Thiago Rotta, diretor de Inovação e Transformação Digital da Microsoft Brasil, explicou o uso de sensores em motores aeronáuticos produzidos pela Rolls-Royce. Graças a eles e à análise dos dados coletados, foi possível reduzir o consumo de combustível em aviões.

Outro caso apresentado por Rotta foi da Thyssen-Krupp, em manutenção preditiva e realidade aumentada. O tempo de manutenção de elevadores foi reduzido à metade. O sistema, disse, está disponível em cerca de 100 elevadores no Brasil.

Clique aqui para fazer o download das apresentações do painel 2.

Painel 3: Aplicações reais nas pequenas e médias empresas

Osvaldo Lahoz Maia, gerente de Inovação e de Tecnologia do Senai-SP, apresentou o tema e procurou tranquilizar as pequenas empresas, dizendo que há luz no fim do túnel em relação à tecnologia da Indústria 4.0, que já encontra aplicações nas indústrias de menor porte.

Destacou que o capital humano tem enorme importância na quarta revolução industrial, ao lado do comprometimento da direção e da adoção de tecnologia, que deve também ser ferramenta de alavancagem da venda do produto.

Maia citou conclusões interessantes da Sondagem da Indústria 4.0, realizada pela Fiesp. Há predisposição de industriais de pequeno porte de adotar a Indústria 4.0, mesmo que isso não seja feito atualmente.

Maia explicou a metodologia do Senai-SP (Rumo à Indústria 4.0), que, frisou, deve começar pelo lean manufacturing (manufatura enxuta). Apresentou caso de indústria de médio porte, a 3A, em que houve a adoção de sensores, painel digital de controle e etiquetagem, destacando que respeitada a escala, a aplicação é a mesma. “A filosofia é a mesma.” Há controle do produto e de quem produziu, o que é essencial para a rastreabilidade, afirmou. Ponto importante, segundo Maia, é a manutenção preditiva.

Há diversas aplicações da Indústria 4.0 para pequenas e médias empresas, possibilitando melhor gestão da produção, aumento da produtividade e melhoria de aspectos de manutenção industrial. É preciso, alertou, qualificar os funcionários.

Maia destacou que sem a colaboração e a visão dos empresários nada é possível. “Tem que ter energia, coragem.”

Marcos Andrade, CEO da EXPOR Manequins, que há 50 anos produz manequins, explicou que ao iniciar a exportação de seus produtos, a empresa se deu conta do desafio de adotar tecnologia para ser competitiva. A fábrica adota manufatura aditiva e laboratório 3D, por exemplo.

O primeiro passo foi o controle da produção, segundo Andrade. Deu exemplos de adoção de tecnologia vinda da indústria aeronáutica (na tinta para os manequins) e da indústria automobilística (digitalização 3D).

A migração digital permitiu melhora da qualidade, produção de moldes melhores, maior controle e processo mais rápido.

A Expor tem até um aplicativo para que as lojas, graças à realidade aumentada, saibam como ficarão os manequins em suas vitrines. A empresa analisa a maturidade das tecnologias, para que o investimento seja rentável. É muito importante, alertou, decidir quando fazer os investimentos. A Extor faz medições objetivas e subjetivas e também procura envolver toda a equipe e garantir o comprometimento da alta gestão. “Estou envolvido em todo o desenvolvimento”, disse.

Guido Ganassali, diretor de Indústria 4.0 da empresa Cecil S/A  Laminação de Metais, empresa familiar com 57 anos de existência, explicou o que chamou de espiral de desenvolvimento, criada para atingir os objetivos da indústria. A solução para a Cecil foi buscar a tecnologia do Senai, que Ganassali considera muito interessante. O processo, iniciado em 2017, deve ser encerrado em 2022. A produtividade deve aumentar em 30%, afirmou. Nossa fábrica não é moderna, disse. “Vamos fazer isso com uma fábrica rodando.” A maneira de conduzir o processo vai permitir adotar tecnologia como a de sensores. O lean manufacturing é fundamental, destacou.

Os estoques serão reduzidos, o time-to-market cairá 89%, e o ebitda crescerá acima da média nacional. O projeto deve custar R$ 40 milhões, com payback conservadoramente previsto de 33 meses.

Há, lembrou, fontes de financiamento público com juros muito interessantes quando é feita parceria com institutos de ciência e tecnologia (ICTs), como o Senai-SP.

Waldir Bianco, diretor da empresa Engedom Artefatos de Metais, explicou mudanças feitas a partir de 2017, com coisas básicas como organizar caixas de ferramentas. A base foi o programa Brasil Mais Produtivo. Houve ganho de 237,5% na produtividade, com retorno do investimento em 35 dias. Isso, e depois o contato com o Senai-SP, levou à decisão de mirar a Indústria 4.0. Um primeiro desafio encontrado foi o envio de dados coletados.

Deixou como sugestões conscientizar a diretoria e envolver a equipe; fazer uma avaliação interna e “chamar o pessoal do Senai-SP”.

Clique aqui para fazer o download das apresentações deste painel.

Fonte: FIESP