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Gigante dos alimentos M. Dias Branco se aproxima de startups


Mesmo uma boa receita de família às vezes só sobrevive se for adaptada ao paladar das novas gerações. Com mais de 65 anos, a fabricante cearense M. Dias Branco, dona das marcas Adria, Piraquê, Isabela e de outros rótulos mais fortes no mercado nordestino, decidiu este ano que era hora de procurar parcerias para investir em inovação.

A fabricante, que responde por um terço das vendas de massas secas e de biscoitos no País, promoveu, neste semestre, a primeira edição do Germinar –  programa feito em parceria com a consultoria Innoscience, que conectou a companhia a startups. O objetivo era descobrir projetos para ampliar o portfólio de produtos da fabricante.

A ideia nasceu em um processo iniciado alguns meses antes, com uma viagem de executivos a polos de inovação globais, incluindo o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), que abriga as maiores empresas de tecnologia do mundo.

“Somos líderes de mercado, mas o setor tem passado por mudanças constantes e é preciso acompanhá-las. Por isso queríamos nos aproximar do ecossistema de inovação, que tem conseguido achar soluções simples e rápidas”, explica Fernando Bocchi, diretor de pesquisa e desenvolvimento da M. Dias Branco. 

O movimento feito pela cearense é similar ao de outros pesos-pesados do setor industrial. Também este ano, a BRF anunciou parceria com startups brasileiras, que foram a gênese de soluções já implantadas, como o acompanhamento da temperatura da carne congelada por sensores.

Segundo Luciana Hashiba, da Fundação Getulio Vargas (FGV), essa relação entre a indústria e as startups só tende a se intensificar nos próximos anos, em um movimento capitaneado por entidades de classe.

Um exemplo desse direcionamento foi o lançamento do Programa Conexão Start-Up Brasil, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), na edição deste ano da Futerecom, evento internacional de tecnologia e inovação.

Embora tenham a intenção de se aproximar de startups, os executivos da M. Dias Branco dizem ter encontrado um terreno promissor, mas ainda carente em termos de desenvolvimento, entre as “foodtechs” – nome dado às startups que encontram novas soluções na área de alimentos. 

“Nos Estados Unidos, o apoio das grandes universidades permite que eles estejam em outra etapa de inovação. Por isso, também esperamos que o nosso programa seja capaz de acelerar esse processo por aqui”, diz Bocchi.

Na fase de inscrições do programa Germinar, mais de 170 startups tentaram se qualificar. Ao fim do processo, oito negócios foram escolhidos para desenvolver futuras parcerias com a M. Dias Branco.

Parceria. Foi o caso da paulista Mandala, empresa de produção de alimentos destinados a pessoas com restrições alimentares por causa de alergias de diferentes tipos. Adriana Fernandes, que fundou a empresa em 2015, teve a ideia após o filho caçula ser diagnosticado como alérgico a multiproteínas.

Na época, Adriana teve de mudar a dieta – já que tudo o que ela comia passava a compor o leite com o qual alimentava o filho. Desta forma, sua alimentação ficou restrita a 37 ingredientes – e a empreendedora enfrentava dificuldades para encontrar todos eles nas gôndolas dos supermercados. 

Hoje, a Mandala produz mais de 150 produtos sem ingredientes de oito grupos de alergênicos – glúten, leite (lactose e caseína), ovos, soja (inclusive lecitina), trigo, amendoim, castanhas, peixes, crustáceos – e sem risco de contaminação cruzada, por utensílios manuseados durante o preparo ou durante o transporte. 

“Não só estávamos criando produtos que não existiam, mas fazíamos parte de um mercado que também não havia sido criado. Por isso, participar de iniciativas de aceleração de startups foi essencial”, explica Adriana. A startup havia recebido alguns prêmios e aporte de investidores-anjo. Agora, começa a firmar parceria com uma empresa conhecida justamente por produtos feitos de trigo.

E isso ocorreu porque a M. Dias Branco buscava justamente opções de novos negócios, com atenção ao segmento de consumidores com restrições alimentares. “Pesquisas de mercado mostram que essa demanda é crescente, mas, sozinhos, não temos condições necessárias para atender a esse público”, diz o diretor de inovação da fabricante cearense.

De seu lado, a Mandala não tinha força de distribuição – seu alcance, com a ajuda da M. Dias Branco, poderá ser ampliado. “Pudemos testar nosso produto em redes de supermercados, onde o público é mais amplo, e finalmente responder a uma dúvida que sempre tivemos: ‘Será que estamos fazendo alimentos apenas para um nicho?’”.

Pokémon Go. A busca por ideias para atualizar a linha de produtos e renovar a forma de produção aproximou a fabricante de massas e biscoitos M. Dias Branco das startups do setor de alimentos, mas a ideia era ir além do aumento de portfólio. 

Com mais de 20 mil funcionários e 15 unidades espalhadas pelo País, a fabricante cearense impôs a si mesma o difícil desafio de desenvolver um projeto de inovação ágil e que atendesse à demanda não só de novos negócios e de inovação nos produtos em que já é líder de mercado, mas também de descobrir novas estratégias de marketing. 

Empresa criou jogo de realidade aumentada para marca da M. Dias Branco
 
Empresa criou jogo de realidade aumentada para marca da M. Dias Branco

A ideia era que as startups apresentassem à fabricante de alimentos projetos já desenvolvimentos de ferramentas de marketing. Uma das empresas selecionadas foi a Winwin, que desenvolve projetos de realidade aumentada. A companhia criou uma espécie de jogo no estilo Pokémon Go para a M. Dias Branco.

Segundo Daniela Klaiman, da Winwin, a possibilidade de construir uma ideia a quatro mãos um produto foi um diferencial. “Era muito evidente que eles queriam fazer algo inovador, porque era o coração da empresa participando da ação.”

Por um mês, os consumidores podiam caçar elementos holográficos da marca de biscoitos Treloso por corredores de alguns supermercados do Recife. Para isso, bastava baixar um aplicativo e apontar o celular para os objetos criados pela realidade aumentada. 

Embora a experiência da M. Dias Branco com startups de alimentos e de marketing seja um sinal de que o ecossistema de inovação da indústria pode crescer rapidamente, a professora Luciana Hashiba, da FGV, alerta que ainda é preciso colher os primeiros resultados práticos dos programas. 

“Há preocupação com a geração de novas startups. As empresas optam por startups com soluções já bem resolvidas, mas o País sofre com a deficiência educacional e, em breve, vão começar a faltar boas startups. É necessário investir em formação”, diz a especialista. 

Fonte: Estadão