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Rogerio Tondo, Diretor Executivo da Orquídea Alimentos


1. Como está sendo 2020 para a Orquídea Alimentos?

Podemos dizer que em 2020, em função da pandemia, tivemos um grande stress, mas de luxo, quando comparado a outros negócios. Na medida em que a maior parte da economia ia parando, nosso setor, por ser de alimentação básica, continuou operando. Além do mais, com as pessoas mais em casa, o consumo de farinha doméstica, misturas para bolos e macarrão tiveram incremento de consumo nos três primeiros meses da quarentena. Felizmente, foi um ano positivo em termos de desempenho operacional, mas muito triste por conta do quadro imposto para mitigar os danos da pandemia.

2. Como está a oferta de trigo no mercado internacional? E no mercado interno?

A oferta de trigo tanto no mercado internacional como no interno está tranquila. Não faltará trigo. Mas os preços do cereal, muito em função da desvalorização cambial, estão muito acima dos preços da safra passada. Além do mais, o mundo todo está aumentando seus estoques de segurança para fazer frente a uma segunda onda da Covid-19, o que pressiona os preços de cereal.

3. O que esperar da próxima safra de trigo? Quando ela se inicia?

A safra no hemisfério sul já começou. A do Paraná falta muito pouco para ser colhida. O mesmo ocorre no RS. Em breve, final de novembro, início de dezembro, inicia a nova safra de trigo Argentino, por tanto, teremos trigo suficiente e de excelente qualidade para abastecer o Brasil. Mas, como o produtor está muito bem capitalizado e com preços recordes de soja, milho e arroz, ele retém e retarda a oferta do trigo para alcançar preços maiores.

4. Já estamos tendo que pagar mais caro pelo trigo? Se sim, quanto? Se não, há essa expectativa?

Este ano foi totalmente fora da curva. A lógica dos moinhos é de entrar com baixo estoque de trigo na nova safra partindo do histórico que sempre é mais barato o trigo novo do que se tem em estoque. Contudo, este ano inverteu a lógica e pegou todos os moinhos com baixos estoques e tendo que pagar o preço que o produtor queria na medida que a oferta seletiva ia sendo dada. No caso do trigo Gaúcho, estamos falando em aumento de safra a safra de mais de 100%.

5. Como avalia o impacto do dólar alto e instável este ano sobre os preços de compra do trigo?

Não faz sentido tamanha desvalorização do dólar no Brasil. Foi maior que muitos países com fundamentos econômicos mais fracos que o país. Mas, o impacto foi grande e deu uma grande vantagem competitiva de exportação de todos os produtos agrícolas que o Brasil vende, competindo com o mercado interno. O resultado foi uma forte pressão dos preços locais e ao que tudo parece, deve se arrastar, no mínimo, para o primeiro trimestre de 2021.

6. Há previsão de falta de trigo no mercado brasileiro?

Não teremos falta de trigo para o Brasil. Talvez no Rio Grande do Sul sim, em função de uma safra menor que a projetada incialmente e uma forte exportação de trigo Gaúcho. Aliado a isso, a falta de milho, também no estado, pode fazer com que o trigo vá para o consumo em ração animal.  Mas o que faltar, será facilmente abastecido pela Argentina, Uruguai, Paraguai e USA.

7. Qual a sua avaliação quanto ao agronegócio no Brasil? E quanto ao nosso desempenho no exterior? Quais os principais avanços que alcançamos e podemos destacar? E os próximos desafios?

O que aliviou o impacto maior na redução do PIB, provocada pela pandemia, além da ajuda econômica de R$ 600,00 dado pelo Governo, foi toda a pujança do agronegócio brasileiro que encontrou no exterior um mercado ávido para consumo. Essa venda provocou movimentação positiva na economia interna em torno do agro. A desvalorização do câmbio ajudou muito também nestas vendas de produtos agropecuários, o que contribuiu para reforçar o superávit na balança comercial. Mas, não podemos depender somente de vendas de commodities, sejam elas agrícolas ou metálicas. Deveríamos vendê-las com agregação de valor na complexa cadeia industrial.
Aliado a isso, é necessário que o Brasil encontre um cenário político de construção de pontes que possibilite fazer o dever de casa de todas as reformas que levem o país a uma estabilidade econômica melhor fruto de maior competitividade. Isso reduziria a depreciação do câmbio, redistribuído a riqueza por toda a sociedade.

Fonte: Assessoria de Imprensa ABIMAPI