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Após liberação da farinha de trigo transgênico, indústria brasileira diz que não vai comprar produto


A indústria brasileira de farinha de trigo e a de biscoitos, massas e pães industrializados não vão adquirir farinha argentina proveniente de cereal transgênico, mesmo após a liberação comercial do produto, segundo entidades que representam as indústrias ouvidas pelo Broadcast Agro. "Os moinhos não vão importar farinha transgênica para mescla com nacional", disse o presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa. "As indústrias não têm interesse em adquirir farinha de trigo geneticamente modificado (OGM)", afirmou o
presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), Claudio Zanão. A compra de trigo e de farinha de cereal convencional do país vai continuar normalmente, segundo as entidades. A Argentina fornece 85% do volume importado anualmente pelo Brasil, que internaliza cerca de metade do consumido internamente.

A importação e a comercialização de farinha de trigo geneticamente modificado (OGM) da variedade HB4 foi aprovada na semana passada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O cultivo desta variedade é permitido desde outubro do ano passado na Argentina. Por lá, ainda há questões a serem resolvidas, como a liberação local da comercialização do trigo transgênico para moagem. Na prática, a indústria moageira
argentina está impossibilitada de exportar a farinha porque não pode processar o cereal
OGM.

A Abitrigo encaminhou na quarta-feira ofício ao Ministério da Agricultura pedindo que a pasta convoque o Conselho Nacional de Biossegurança para rever a decisão da CTNBio - órgão que é subordinado ao conselho. "Eles estão examinando o pedido e irão nos retornar.

A CTNBio examina o pedido do ponto de vista da segurança alimentar. A oportunidade e conveniência é examinada pelo governo", afirmou Barbosa da Abitrigo. Ele explica que, caso o conselho não seja convocado, a decisão da CTNBio entra em vigor 30 dias após sua publicação, ou seja, seria válida a partir de 12 de dezembro. A Abimapi, que responde por um terço do consumo de farinha nacional, apoia o pedido de revisão.


As entidades reconhecem a avaliação técnica da CTNBio, de que a farinha de cereal transgênico é segura para alimentação humana, mas questionam o impacto comercial da
medida. "Trata-se de uma decisão técnica que foi tomada sem pesquisa de opinião pública sobre a aceitação da farinha de trigo transgênico e que pode trazer consequências
mercadológicas para o setor", avalia Barbosa. Para Zanão, da Abimapi, não há vantagem econômica ao setor e sim eventuais prejuízos comerciais. "A CTNBio deliberou com foco técnico na saúde. A comissão não avalia questões comerciais. Não há barateamento de custos e nem vantagem competitiva, enquanto pode prejudicar nossas exportações", pontuou o executivo.


Zanão lembra que deveria haver mudanças nos rótulos das embalagens dos produtos industrializados, o que é inviável de ser adequado em um mês. "Há estoque de embalagens para meses. Dependendo do produto, a indústria adquire embalagem para até um ano. As embalagens atuais não poderão ser utilizadas com a farinha transgênica", comenta Zanão. Barbosa, da Abitrigo, aponta que, caso a decisão seja levada adiante, será necessária uma revisão na legislação que regula o nível de resíduos de transgênicos permitidos nos derivados de trigo. Ele também cita a necessidade de fiscalização e controle por parte do governo para evitar entrada ilegal de trigo transgênico no País. "O problema é se haverá introdução ilícita deste trigo OGM no Brasil, porque a Argentina está colhendo 55 mil hectares de cereal OGM, cerca de 200 mil toneladas", relatou.

A principal preocupação das indústrias é com a aceitação do consumidor em relação à farinha do cereal transgênico. "Nossa principal incerteza é com relação aos consumidores.

Moinhos não irão importar, mas tradings ou padaria podem internalizar esse cereal", apontou Barbosa. Zanão observa que os consumidores estão buscando, cada vez mais,
produtos mais saudáveis - orgânicos, naturais, sem glúten -, ao contrário da farinha transgênica. "É um movimento que vai na contramão do mercado e da maior saudabilidade demandada pelo consumidor." Na avaliação de Zanão, mesmo que alguns itens como tipos de biscoitos já contenham traços de transgenia por uso de óleos, como o óleo de soja, estes são em menor quantidade na composição dos produtos, diferentemente da farinha.

O receio dos fabricantes de massas e biscoitos também está relacionado com o mercado externo. Fabricantes estão preocupados com a reação dos exigentes consumidores
internacionais e possíveis embargos internacionais. Um dos mercados mais sensíveis à mudança tende a ser o europeu. "As exportações destes produtos provavelmente não serão aceitas. E a indústria brasileira terá de reforçar medidas de garantia ao comprador externo de que não utiliza farinha transgênica e que sua farinha importada não está contaminada", analisou Zanão.

Parte da cautela advém do ineditismo da medida. O País foi o primeiro do mundo a permitir concessões na transgenia do trigo. "Não há justificativa plausível para essa
medida agora. Não precisamos ser o primeiro país do mundo a liberar produto transgênico e perder acesso a mercados que nos interessem", afirmou o presidente da Abimapi.

Fonte: ABIMAPI